Parte III · A ferramenta não é a leitura

A atualização que não atualiza nada

Presta atenção no que está acontecendo ao seu redor.

Alguém da sua equipe acabou de se matricular num curso de inteligência artificial. Outro está acumulando certificações que ainda não sabe onde vai usar. Um terceiro fala em “se reinventar” com a mesma urgência de quem fala em pagar uma conta atrasada.

Talvez até você mesmo esteja sentindo isso.

O mercado convergiu para uma única instrução: atualize suas competências ou fique para trás. O nome técnico é reskilling, que é basicamente requalificação profissional, e virou o conselho mais repetido dos últimos dois anos. Parece razoável. Parece até responsável. Mas tem algo acontecendo por baixo que vale a pena olhar com mais cuidado.

Quando todo mundo recebe a mesma orientação ao mesmo tempo, o que se instala é contágio, não estratégia.

Ninguém parou para escolher a direção. O mercado apontou, e as pessoas saíram correndo. Quem está “se atualizando” parece estar no caminho certo. Quem não está parece ficando para trás. Mas certo para quem? Para quê? Essa pergunta quase ninguém faz.

O que as empresas chamam de “gap de habilidades” é, na maioria das vezes, um problema de direção, não de competência. O mercado trata carreira como problema técnico: falta “skill”, adquira habilidades. Mas para quem lidera no meio de uma organização, cobrado de cima por inovação e sustentando embaixo uma equipe sem clareza do que quer construir, o problema não é técnico. E para quem está sozinho tentando redesenhar a própria trajetória, tampouco.

Durante muito tempo, crescer na carreira tinha uma lógica reconhecível. Experiência e domínio técnico valiam. Senioridade abria portas. Essa lógica perdeu força, e nada igualmente claro ocupou o lugar dela. O que ficou foi uma urgência difusa e uma esteira de certificações que promete atualização mas não devolve direção.

Eu chamo isso de inadequação evolutiva. A questão não está na pessoa: o ambiente onde ela está é que já não reconhece nem valoriza o que ela se tornou.

E em vez de olhar para esse desajuste como algo que acontece entre a pessoa e o ambiente, o mercado transforma tudo em déficit individual: “o problema está em você, que não se adaptou”.

O próprio World Economic Forum reconheceu que essa crise de identidade profissional é real e subestimada. Que poucos estão se preparando para o que significa, de verdade, perder o chão de uma profissão: o luto, a perda de lugar, a sensação de não saber mais onde você se encaixa. Chegaram a dizer que isso deveria ser tratado como risco global. Mas o mercado continuou fazendo o que sabe fazer: oferecendo cursos.

Enquanto isso, algo mais silencioso acontece. Profissionais em início de carreira descobrem que aquele acordo tácito de começar por baixo, aprender no dia a dia e ir crescendo está perdendo sentido, porque boa parte desse percurso já pode ser feito por uma máquina. Profissionais no meio da estrutura percebem que as regras do jogo mudaram sem que ninguém explicasse quais são as novas. E os mais seniores se perguntam se o que acumularam em vinte anos ainda vale alguma coisa.

O problema não está na requalificação em si: sem saber para onde você está indo, qualquer “curso” é só movimento.

Adquirir habilidades porque o mercado disse que é urgente, sem ter clareza da sua própria direção, é trocar a sensação de inadequação por uma adaptação que parece sua mas não é. É parecer atualizado correndo numa direção que ninguém parou para questionar.

Quando isso acontece em escala, o resultado é todo mundo fazendo a mesma coisa, não inovação: disputando o mesmo espaço, acumulando as mesmas credenciais. E quando só existe uma forma de parecer relevante, qualquer pessoa que pense diferente vira problema.

Antes de investir na próxima certificação, existe uma pergunta que reorganiza tudo:

Quando eu penso em dar certo nos próximos dois ou três anos, o que teria que estar acontecendo?

Parece simples. Mas essa pergunta obriga cada pessoa a parar e nomear o que realmente importa para ela. Para alguns, dar certo é construir maestria técnica. Para uns, é conquistar espaço próprio. Para outros, é produzir algo que fique. A rota precisa vir antes da competência, não depois. Sem ela, qualquer atualização é uma forma elegante de correr no mesmo lugar.

Andréia Assis

Andréia Assis

Médica de formação, executiva e autora. Ajuda líderes e organizações a ler o campo antes de intervir. Autora de Liderança Singular e Domador de Rinocerontes.

Um ponto cego por semana, antes da semana começar.

Este texto nasceu na DOMADORES, a newsletter de Andréia Assis. Assinar a newsletter →