Parte III · A ferramenta não é a leitura

Compraram a ferramenta. O resultado não veio.

A reunião geral foi quase solene. A liderança subiu e anunciou a virada: licenças para todo mundo, copilotos em cada tela, a promessa de que agora, finalmente, ia destravar. Tinha entusiasmo no ar. E tinha alívio, o alívio de quem acredita que acabou de comprar a saída.

Corta para seis meses depois.

A ferramenta está em todo lugar. Você abre o painel e ele continua igual. Ou pior. A mesma exaustão, o mesmo desengajamento, só que agora mais rápido.

O que ninguém nomeia é simples: compraram a ferramenta achando que ela era a solução.

Ferramenta não conserta erro de leitura. Esse é o princípio, e ele vale antes de qualquer exemplo. O MIT mediu o tamanho disso no relatório GenAI Divide. Mesmo com dezenas de bilhões de dólares investidos em IA generativa, 95% das empresas não tiveram retorno mensurável. A tecnologia estava lá, funcionando. O que estava errado era o nível em que ela foi aplicada.

Porque a IA acelera aquilo para onde ela é apontada. Apontada para um sistema mal lido, ela acelera o erro. É a velha ilusão de que ter o dado é a mesma coisa que ter a solução, agora com mais potência na mão.

E o que acontece quando a virada prometida não vem? O sistema raramente desconfia do próprio diagnóstico. Ele desce um nível. Se a ferramenta está lá e o resultado não aparece, a conclusão fácil é que falta gente usando direito. Então vem mais cobrança de adoção, mais painel de uso, mais reunião para entender por que ninguém está extraindo o valor que prometeram.

Veja o que se inverteu sem ninguém perceber. A tecnologia que entrou para aliviar a operação virou mais um motivo para apertar as pessoas. O líder que não conseguiu dominar a ferramenta aperta o controle sobre quem está embaixo dele, porque é ali que ainda sente que manda. E a equipe, que já estava no limite, agora carrega também a culpa de não ter feito a mágica acontecer.

É o sintoma sendo tratado como causa.

A exaustão tinha outra raiz, e a IA nunca alcançou essa raiz. Mas como a ferramenta foi vendida como cura, a falta de melhora passou a ser lida como falha de quem a usa. O erro de leitura inicial não some. Ele só desce de andar e vira pressão.

E você já viu esse filme na semana passada. A IA virou mais uma coisa jogada na mesma cadeira que já era depósito, e foi confundida com a cura.

A IA entrou. O resultado não veio.

Erro de leitura não se compra. Se corrige.

Isso é inverter a ordem, não ser contra a IA. Antes de apontar a ferramenta, aponte o diagnóstico. E a pergunta que separa um do outro cabe numa linha: isto que estou tentando resolver com a IA é mesmo um problema de ferramenta, ou é um problema de desenho que a ferramenta só vai acelerar?

Se for desenho, IA sem redesenho apenas faz a coisa errada acontecer mais rápido. A ferramenta serve a um diagnóstico correto. Ela não substitui o diagnóstico.

A leitura vem antes. Sempre veio.

Nenhuma ferramenta entrega a leitura que vem antes dela: a capacidade de ler o sistema certo antes de agir sobre ele. Ler antes é decidir antes.

Andréia Assis

Andréia Assis

Médica de formação, executiva e autora. Ajuda líderes e organizações a ler o campo antes de intervir. Autora de Liderança Singular e Domador de Rinocerontes.

Um ponto cego por semana, antes da semana começar.

Este texto nasceu na DOMADORES, a newsletter de Andréia Assis. Assinar a newsletter →