Parte V · A estrutura antes da pessoa

O que acontece quando alguém precisa ser o problema

Existe um momento em algumas equipes em que a tensão acumulada começa a procurar um endereço. As pessoas estão desconfortáveis, o resultado não aparece, as relações estão crispadas, e esse estado exige resolução. Não necessariamente resolução real. Resolução simbólica.

Então alguém começa a acumular a culpa coletiva. Não porque planejou. Não porque é necessariamente o mais fraco, o mais diferente ou o que errou mais. Às vezes é exatamente o contrário: é quem mais questiona, quem não embarca no consenso fácil, quem nomeia o que os outros preferem não ver.

Quando o ambiente precisa de um culpado, ele o fabrica, e ninguém percebe que foi o ambiente que escolheu.

René Girard chamou isso de mecanismo do bode expiatório. A lógica é simples: quando o desejo circula de forma mimética num grupo, quando todos querem o mesmo, temem o mesmo, disputam o mesmo, a tensão cresce até um ponto de saturação. E então o sistema encontra um alívio provisório ao concentrar toda essa carga em uma figura única.

O bode expiatório é construído por acumulo, não escolhido por voto. Uma leitura aqui, uma ausência lá, um atrito que ficou sem resolução. Até que a narrativa se fecha ao redor de alguém, e o grupo, por um momento, respira.

O problema é que esse mecanismo não resolve nada. Ele suspende. A tensão que estava distribuída agora está concentrada, mas a causa que gerou a tensão continua intacta. Quando o bode expiatório sai, outro será necessário. O sistema encontrou um padrão que funciona, e vai repeti-lo.

Líderes que não reconhecem esse mecanismo costumam interpretá-lo como conflito interpessoal. Ficam tentando resolver a relação entre as pessoas, quando o problema é a relação do grupo com a pressão que não foi nomeada.

É um problema de campo, não de pessoa. E campos não se resolvem com feedback.

O líder que quer interromper esse ciclo precisa fazer algo contraintuitivo: nomear a tensão antes que ela encontre um endereço. Isso significa perguntar o que está pesado, o que não está sendo dito, onde o grupo perdeu a confiança, e sustentar essa conversa sem precisar fechar em alguém.

É uma habilidade de diagnóstico, não de comunicação. Saber distinguir um conflito real de um conflito fabricado pelo ambiente. Saber quando o problema é a pessoa, e quando a pessoa é o sintoma de algo que o grupo ainda não conseguiu nomear.

Nomear o mecanismo antes que ele complete o ciclo é o gesto mais estrutural que um líder pode fazer num momento de pressão coletiva.

Isso não aparece em nenhum treinamento de liderança padrão. Mas é exatamente o que separa quem resolve o sintoma de quem reorganiza o campo.

Andréia Assis

Andréia Assis

Médica de formação, executiva e autora. Ajuda líderes e organizações a ler o campo antes de intervir. Autora de Liderança Singular e Domador de Rinocerontes.

Um ponto cego por semana, antes da semana começar.

Este texto nasceu na DOMADORES, a newsletter de Andréia Assis. Assinar a newsletter →