Parte V · A estrutura antes da pessoa

O que o mundo faz com a sua segunda-feira

Percebi, faz um tempo, uma coisa que me incomodou.

Eu estava cansada, mas quando parei para entender de onde vinha aquele peso, descobri que não tinha nada a ver com o meu trabalho, com os meus projetos ou com as decisões que preciso tomar todos os dias. O cansaço vinha de coisas que nem eram minhas, que tinham entrado pela tela do celular de manhã cedo e ficado ali, ocupando um espaço que eu precisava para pensar.

Guerra, crise fiscal, cotação do dólar, a discussão sobre o regime de trabalho, previsão de recessão, e alguém já opinando sobre tudo isso com aquela urgência de quem está salvando o mundo antes do café da manhã. Fechei o celular e fui trabalhar, mas o peso já estava comigo. Tinha entrado sem pedir licença e não ia sair tão fácil; já estava ocupando lugar na minha mente.

Eu aposto que com você acontece algo parecido, talvez não nos mesmos temas, mas no mesmo mecanismo: o mundo entra, sequestra espaço e, quando você finalmente se senta para pensar no que realmente importa, a energia já foi. Restou o suficiente para reagir, mas não para pensar de verdade. E o dia começa com aquela sensação de que você já está atrasado e isso é algo que consome.

Byung-Chul Han escreveu um livro pequeno e muito preciso chamado A Sociedade do Cansaço, onde argumenta que o esgotamento que sentimos hoje não vem de alguém nos pressionando de fora, mas de uma lógica que internalizamos sem perceber. A de que tudo exige posição, resposta, reação; que estar informado é o mesmo que estar preparado, e que acompanhar o mundo é o mesmo que participar dele. A gente acredita nisso com tanta convicção que gasta a melhor parte da nossa atenção com coisas sobre as quais não temos nenhuma governança e, quando finalmente olhamos para o que é nosso, estamos com olhos de quem já trabalhou o dia inteiro sem ainda ter feito nada.

Eu acredito que esse cansaço de mundo esconde algo mais silencioso, algo que aparece quando o barulho externo se esgota como assunto e sobra aquele silêncio incômodo onde mora aquela pergunta que quase ninguém quer fazer em voz alta: será que eu ainda pertenço a esse lugar? será que eu ainda quero isso?

O cansaço mais difícil de nomear é o de estar em um lugar que já não corresponde a quem você se tornou, rodeado de barulho suficiente para nunca pensar sobre essa questão.

Eu chamo isso de inadequação evolutiva. É a sensação de que o encaixe entre quem você é e o lugar onde opera se desfez em algum momento, sem aviso, sem evento dramático, sem ruptura visível. Você não foi demitido, não falhou, não ficou incompetente, pelo contrário: você cresceu, mudou, se transformou, e o ambiente ficou onde estava, ou mudou numa direção que já não faz sentido para quem você se tornou. Essa distância raramente é nomeada, porque falta vocabulário para descrevê-la sem que pareça ingratidão ou capricho, e ela produz um cansaço que “sair de férias” não resolve.

O ruído do mundo externo entra nessa equação como um álibi involuntário, quase perfeito. Enquanto você está ocupado monitorando guerra, inflação, Copa do Mundo, mudança regulatória, você não precisa parar para se perguntar se o lugar onde está ainda é o seu. A informação externa preenche exatamente o espaço que essa pergunta precisaria para ser feita. E como todo mundo ao redor também está consumindo o mesmo ruído... tudo parece normal, parece produtivo, parece que você está atento ao que importa.

Só que o que importa de verdade, para quem lidera, costuma estar longe do noticiário. Costuma estar naquilo que ficou sem resposta na sua própria mesa, no desconforto que aparece quando a reunião acaba e você fica sozinho com seus pensamentos, na pergunta que você evita fazer ao espelho. O barulho do mundo é companhia perfeita para quem não quer ouvir essa pergunta.

O que fica é: antes de abrir o celular na segunda-feira de manhã, antes de deixar o mundo entrar, dê a si mesmo cinco minutos de silêncio. Sem agenda, sem técnica, sem propósito além de uma pergunta honesta: o que é meu aqui? E o que eu estou carregando para não precisar olhar para o que é meu?

Andréia Assis

Andréia Assis

Médica de formação, executiva e autora. Ajuda líderes e organizações a ler o campo antes de intervir. Autora de Liderança Singular e Domador de Rinocerontes.

Um ponto cego por semana, antes da semana começar.

Este texto nasceu na DOMADORES, a newsletter de Andréia Assis. Assinar a newsletter →