Parte V · A estrutura antes da pessoa

A resiliência que não serve mais

Tem uma palavra que aparece em quase toda conversa sobre liderança nos últimos anos: resiliência. É a virtude que ninguém questiona, o adjetivo que toda empresa quer atribuir aos seus líderes, o currículo invisível que se cobra de qualquer profissional que sobreviveu aos últimos cinco anos.

Tenho pensado bastante sobre isso. Não porque a palavra esteja errada, mas porque ela carrega uma promessa silenciosa que já não se sustenta.

Resiliência, no sentido clássico, é a capacidade de voltar ao estado anterior depois de uma deformação. É a régua que volta a ser reta. É o vidro que aguenta o impacto e retoma a forma original. É a propriedade física de um material que se modifica sem ser, de fato, alterado.

E é aqui que o problema começa: voltar ao estado anterior pressupõe que o estado anterior ainda existe.

Durante boa parte do século passado, esse pressuposto era razoável. A economia, a vida profissional, a estrutura das organizações funcionavam por ciclos. Períodos de estabilidade interrompidos por rupturas pontuais. A ruptura era exceção. O normal era o pano de fundo. Nesse desenho, fazia sentido cultivar a capacidade de aguentar o choque e voltar ao funcionamento de antes. Resiliência era virtude porque havia um “antes” para o qual voltar.

Esse mundo acabou.

O que descrevemos hoje como mundo de ruptura permanente, rápido, imprevisível, paradoxal e turbulento, é a condição estrutural, não um período difícil que vai passar. As rupturas deixaram de ser eventos isolados e passaram a ser pano de fundo. Tecnologias encurtam ciclos antes que comportamentos se consolidem. Modelos de negócio param de funcionar sem aviso. Regras de carreira se reorganizam antes que as anteriores tenham sido compreendidas. Não há “voltar ao normal” porque não há um normal estável esperando do outro lado da curva.

E aqui está o ponto que poucos nomeiam: continuar exigindo resiliência num ambiente assim é exigir que a pessoa volte para um lugar que não existe mais. É treinar alguém a aguentar o choque para retornar a um estado anterior que evaporou enquanto ela estava aguentando.

O que sobra, na prática, é resistência ao colapso. E confunde-se essa resistência com força.

Quando o ambiente é estruturalmente instável e o discurso dominante segue elogiando a resiliência, o que acontece é que as pessoas passam a sustentar, individualmente, uma incoerência que é do sistema. O líder aguenta mais. A equipe aguenta mais. A diretoria aguenta mais. O profissional médio passa a ser o gestor da própria exaustão, cobrando de si o que o ambiente não devolve em estrutura. Toda resistência tem um limite. E o limite chega na forma de exaustão crônica, cinismo silencioso, fuga discreta antes da debandada visível.

A exaustão contemporânea é sinal estrutural, não fragilidade emocional. É o organismo dizendo, em linguagem bioquímica, que o ritmo do ambiente e o ritmo humano entraram em descompasso, e que sustentar essa incoerência tem um custo cumulativo.

Eu chamo de antirresiliência o que vem depois desse reconhecimento. É o oposto da resiliência no sentido estrutural, não no sentido moral: a capacidade de não voltar para o padrão anterior quando ele já não descreve mais o jogo. Não é impulso. Não é ruptura performática. Não é abandonar o que se construiu. É reorganização por lucidez, feita antes que o corpo, ou a equipe, ou o resultado, obrigue por colapso.

A diferença entre as duas é discreta no discurso e radical na prática. A resiliência olha para trás e pergunta como aguentar até voltar. A antirresiliência olha para o presente e pergunta o que precisa ser redesenhado, agora, para que aguentar pare de ser a única operação disponível.

Antirresiliência é a coragem mais difícil, não abandono nem desistência: a de reconhecer, antes que o corpo obrigue, que o que se está aguentando já não merece ser sustentado da mesma forma.

Andréia Assis

Andréia Assis

Médica de formação, executiva e autora. Ajuda líderes e organizações a ler o campo antes de intervir. Autora de Liderança Singular e Domador de Rinocerontes.

Um ponto cego por semana, antes da semana começar.

Este texto nasceu na DOMADORES, a newsletter de Andréia Assis. Assinar a newsletter →