Você já disse essa frase ou já ouviu alguém dizer: “Essa geração não quer trabalhar.” Ela circula em reunião de diretoria, em jantar de família, em post de LinkedIn e em conversa de corredor entre duas reuniões. Ninguém precisa explicar de qual geração se trata. Todos já sabem.
Levei um tempo para entender o que me incomodava ali. Aquilo é um laudo, não uma observação. E foi emitido sobre uma geração inteira sem que ninguém tivesse levantado a “história” deles.
Passei anos da minha vida fazendo anamnese. É a parte mais lenta da medicina e é a que decide tudo. Antes de dizer o que a pessoa tem, você pergunta o que aconteceu com ela. Quem inverte essa ordem não diagnostica, opina com vocabulário técnico.
Ninguém fez a anamnese dessa geração. Fomos direto para o laudo.
Então vamos fazer a história clínica. Em março de 2020, quem hoje tem entre 20 e 25 anos tinha entre 14 e 19. Estavam no meio do ensino médio, no primeiro ano da faculdade, no primeiro estágio. Estavam na fase em que a pessoa descobre quem é fora de casa.
A adolescência, na literatura de desenvolvimento, não termina aos 18. Orben, Tomova e Blakemore, no Lancet Child & Adolescent Health, trabalham com a faixa dos 10 aos 24 anos e descrevem esse período como uma janela de sensibilidade aumentada ao estímulo social. É quando o cérebro social se organiza, e ele se organiza no contato com pares. Não com adultos. Com pares.
Uma linha, para quem me lê há mais tempo. Eu continuo dizendo que idade não deveria ser ponto de corte em decisão de gestão, e continuo achando que ano de nascimento não explica o que uma pessoa quer da vida. O que estou descrevendo aqui é outra coisa. É uma fase de desenvolvimento com prazo biológico, e não um rótulo de coorte.
O que o lockdown retirou dessa faixa etária foi exatamente a convivência com pares. Não foi só a escola. Foi a formatura, o primeiro emprego, o namoro, a briga, o ritual de passagem, a chance de errar na frente dos outros e descobrir que dava para sobreviver ao erro. No lugar disso vieram dois anos de incerteza contínua, sem nenhum controle sobre o que ia acontecer depois, vividos justamente na janela de tempo em que o cérebro social se organiza.
Existe um estudo de neurociência que trabalhou com dois grupos de adolescentes, todos por volta dos 16 anos. Um grupo foi avaliado antes da pandemia. O outro foi avaliado depois dos “fechamentos”. Entre um grupo e outro apareceram diferenças mensuráveis de maturação cerebral, e elas apareceram em quem atravessou o período. A referência completa está no rodapé, com metodologia e ressalvas, para quem quiser conferir.
É um estudo pequeno, compara grupos diferentes de pessoas e não prova causa nenhuma. Eu não vou fazer com ele mais do que ele permite, e não vou explicar mecanismo cerebral aqui, porque não é isso que ajuda quem lidera. O que ajuda é saber o que um achado desses autoriza a dizer.
E o que ele autoriza a dizer, na minha leitura, é uma coisa só: o que atravessou essa faixa etária não ficou apenas no terreno do comportamento e da escolha.
A pandemia não passou por cima dessa faixa etária. Passou por dentro.
Existe ainda uma assimetria entre eles e nós que quase ninguém nomeou. Nós também atravessamos aquilo, mas tínhamos memória de um mundo que funcionava antes, e nos agarramos a ela como quem se agarra a uma corda num abismo. Duas semanas, diziam. Depois um mês. Depois até o fim do ano. A corda era ruim, mas era corda.
Eles não tinham corda. Estavam construindo a primeira versão do mundo deles justamente quando o mundo parou de dar sinal. Ninguém disse a eles que aquilo ia acabar, porque ninguém sabia.
Aqui entra a peça que muda a leitura, e ela também vem da neurociência. Em 2016, cinquenta anos depois de criarem o conceito de desamparo aprendido, Maier e Seligman publicaram na Psychological Review uma revisão em que inverteram a própria teoria. O artigo está nas referências, com o mecanismo inteiro, para quem quiser ir atrás.
A conclusão, traduzida, é que a passividade diante de adversidade prolongada e sem controle não é aprendida. Ela é o ponto de partida. O que se aprende é o contrário, a percepção de que dá para agir e de que a ação muda o resultado.
Daqui em diante quem está falando sou eu, e é importante que isso fique claro. O artigo descreve um mecanismo. Ele não descreve a Geração Z, não cita a pandemia e não conclui nada sobre o mercado de trabalho. A ponte entre uma coisa e outra é minha, e eu faço essa ponte com o que aprendi na medicina somado ao que observo, há anos, em conversa de liderança.
Lida assim, esperança deixa de ser temperamento e deixa de ser otimismo. Ela passa a ser um resíduo de experiência. É o que sobra em quem já fez força e viu a força virar resultado. Quem não teve essa experiência não tem de onde tirar.
Eles não perderam a esperança. Não tiveram tempo de construir uma.
Perder pressupõe ter tido. A janela em que essa experiência costuma se instalar foi ocupada por outra coisa. Eles não regrediram e não desistiram. Ficaram no ponto de partida.
Isso não é preciosismo de vocabulário. Desmotivação e desesperança produzem quadro parecido e têm mecanismo distinto. Desmotivação é querer alguma coisa e não estar conseguindo, e responde a incentivo, a reconhecimento e a desafio. Desesperança é ter parado de projetar um futuro em que esforço vira resultado, e não responde a nenhum dos três, porque os três pressupõem esse futuro para serem respondidos.
Quer dizer que nada do que a sua empresa oferece a esse grupo falha por má execução. O plano de carreira está bom. O programa de mentoria está bom. Está tudo sendo aplicado ao quadro errado.
Existe um instrumento populacional que mede isso pelo nome, e o nome não é ansiedade nem depressão: é desesperança. Nos Estados Unidos, o Youth Risk Behavior Survey, do CDC, pergunta a estudantes de ensino médio sobre sentimentos persistentes de tristeza ou desesperança. Eram 30% em 2013, 42% em 2021 e 39,7% em 2023.
A curva já subia antes da pandemia. E depois não regrediu.
Essa leitura vale mais do que qualquer número isolado. A pandemia acelerou algo que já estava em movimento e que se não desfez depois. No Brasil, o informe da Agenda Jovem Fiocruz mostra internação por transtornos mentais mais frequente entre 15 e 29 anos do que acima dos 30, com essa mesma faixa procurando menos a atenção primária. Adoecem mais e procuram menos.
Uma ressalva, e ela reforça o argumento em vez de enfraquecê-lo. Existe uma metanálise na JAMA Pediatrics que olhou só para os estudos que acompanharam as mesmas pessoas antes e durante o período, e o aumento que ela encontra é mais modesto e muito mais desigual do que o de outros levantamentos.
Ou seja, o efeito não foi o mesmo para todos. E é exatamente por isso que rótulo geracional é instrumento ruim. Se a pandemia tivesse produzido efeito idêntico em todos os nascidos num intervalo de datas, o rótulo funcionaria. Ele não funciona porque houve exposição desigual a uma condição, e não uma característica compartilhada por uma coorte inteira.
Agora olhe para os instrumentos com que esse grupo está sendo medido em seleção, em avaliação de desempenho, em conversa de carreira. Garra. Ambição. Onde você quer estar daqui a cinco anos... Nenhuma dessas perguntas é neutra. Todas pressupõem futuro crível, e depois usam a resposta como medida de caráter.
Quem segura a régua não vê a régua.
Vê só o número baixo e conclui que o problema é a pessoa medida. Esse é o ponto cego dentro do ponto cego, e ele é o instrumento que nunca entra na conversa.
O relatório Tendências de Gestão de Pessoas 2024, do ecossistema Great People e GPTW, mostra que 68,1% dos respondentes apontam a Geração Z como a geração com que tem mais dificuldade, contra 11,4% para os Baby Boomers. O mesmo relatório mostra que, em 2023, pela primeira vez na série histórica, saúde mental apareceu como o principal desafio de gestão de pessoas.
O veredito e o sintoma estão no mesmo documento, em páginas diferentes. A conta é sua.
A saída desta edição não é gerencial, e ela vem da minha observação, não de conclusão de laboratório. Eu não tenho o que dizer sobre o que fazer com eles. Tenho o que dizer sobre a ordem da leitura, que é a única coisa que a medicina me ensinou a defender com essa teimosia.
Trocar o laudo pela anamnese é inverter essa ordem. Antes de dizer o que a pessoa é, perguntar o que aconteceu com ela. E existe uma pergunta que eu nunca vi ninguém fazer em conversa de carreira. O que essa pessoa viu terminar bem na vida dela até hoje? Não o que ela quer. O que ela já viu dar certo.
Fica o alerta, porque sem ele isto vira absolvição. Diagnóstico não perdoa nem condena, descreve. A exigência não cai e a entrega continua sendo entrega. O que muda é a conduta, porque conduta baseada em diagnóstico errado não funciona.