Sobrecarga invisível

Por que você termina exausto se a agenda não estava tão cheia?

Existe um cansaço que não aparece em nenhuma linha da sua agenda. É outra coisa, não o volume; o volume você daria conta. Um esgotamento que chega no fim do dia sem remetente, sem uma reunião para culpar, sem uma entrega atrasada para apontar.

Ele não cabe no calendário porque não veio de nenhuma tarefa específica. Veio de uma configuração, e configuração não tem linha própria na agenda. Você termina a semana esvaziado e não sabe dizer exatamente de quê.

Quem está no meio da estrutura conhece esse cansaço melhor do que gostaria. Se você é o head, o gerente sênior, o diretor cobrado de cima e sustentando embaixo, provavelmente já sentiu isso sem ter uma palavra para descrever.

Vou começar por onde quase ninguém começa, porque é justamente aqui que o diagnóstico sai torto.

O que adoece quem ocupa esse posto não é a quantidade de trabalho; é trabalhar sob alta exigência e baixo controle ao mesmo tempo.

Há quase cinquenta anos, um pesquisador chamado Robert Karasek separou duas coisas que o mercado insiste em tratar como uma só: o quanto um trabalho exige de você e o quanto ele deixa você decidir. Quando as duas são altas, o trabalho é intenso, mas é vivo. Quando a exigência é alta e o controle é baixo, o mesmo peso que energizaria uma pessoa vira desgaste puro na outra.

E isso não é força de expressão. Em estudos com a mesma carga objetiva de trabalho, o grupo com mais autonomia teve pressão e cortisol mais baixos do que o grupo com menos. A variável nunca foi o peso. Foi quem podia decidir sobre ele.

Existe um jeito de ver isso que torna o problema difícil de ignorar. Desenhe um quadro com dois eixos. No vertical, o quanto o trabalho exige de você. No horizontal, o quanto ele deixa você decidir.

Quadrante de Karasek · plotagem Domadores

Agora marque a sua posição nesse mapa. O head, o gerente sênior, o diretor no meio da estrutura cai sempre no mesmo canto, exigência lá em cima e controle lá embaixo. É onde o desenho do posto colocou você, não um ponto que você escolheu.

E repare no que o mapa faz com as saídas de sempre. Baixar a exigência sem devolver controle não leva ninguém para o lugar saudável, empurra para baixo, para o cargo esvaziado. Aguentar melhor mantém você parado no vermelho. A única direção que cura é horizontal, devolver decisão, sair da alta tensão para o ativo sem tirar nada da exigência.

E ninguém lá em cima precisa querer que seja assim. A decisão que ninguém toma também é uma decisão, e ela sempre se resolve para baixo. Ambiguidade é barata de segurar no topo, onde vira flexibilidade e alinhamento em aberto, e é cara de segurar embaixo, onde alguém precisa agir sobre ela e assinar o resultado. A omissão não desce por maldade. Desce por economia, pelo caminho de menor custo para quem pode adiar.

Aqui está a parte que quase nunca se nomeia. O sistema, a essa altura, já encontrou um equilíbrio. Só que é um equilíbrio ruim, do tipo que se sustenta preservando o próprio erro em vez de corrigi-lo. E o que mantém esse equilíbrio de pé é a sua competência, não a inércia de cima.

Eu vejo isso o tempo todo. Quanto melhor você sustenta o insustentável, mais invisível fica a falha de desenho que o produziu. Você não está apenas carregando o peso, está apagando a prova de que o peso não deveria existir. É por isso que ninguém conserta, porque visto de fora parece consertado.

A sua excelência virou a camuflagem do defeito estrutural.

E o corpo registra o que a planilha não registra. Diante de uma exigência, o organismo se adapta, sobe o cortisol, acelera o batimento, você atravessa, e isso é saudável no curto prazo. O problema é quando a resposta não desliga, e em alta exigência com baixo controle ela não desliga, porque você não pode decidir para sair.

O custo então se acumula, quieto, no que a medicina chama de carga alostática. Que significa a fatura que o corpo vai guardando em pressão, inflamação e desgaste, e só apresenta bem depois. É por isso que esse cansaço não tem endereço na agenda. Ele é o desgaste somado de uma configuração que nunca desliga, não de uma tarefa. E o custo é biológico antes de ser gerencial: alta exigência com baixo controle está associada a cerca de 23% mais risco coronariano num estudo do Lancet com quase 200 mil pessoas.

Então você está aguentando o que nunca foi seu, não chegando ao fim das suas forças. Isso tem nome: governança por omissão.

Governança por omissão é o padrão pelo qual a empresa produz seus maiores custos humanos a partir das decisões que evita, e passa a conta para quem não tem poder de recusá-la.

É contra esse fundo que a oferta de sempre mostra o que realmente é. Diante de um gestor exausto, a organização oferece treinamento de resiliência, como se a saída fosse aguentar mais um pouco e melhor. Só que resiliência, nesse contexto, não conserta nada, ela é a virtude que ensina você a metabolizar o erro mais rápido, para que o desenho nunca precise mudar. Ser resiliente num ambiente estruturalmente insustentável apenas prolonga o problema, com a sua saúde bancando o adiamento.

A saída, então, é parar de ser o subsídio invisível, não aguentar melhor.

O primeiro movimento é diagnóstico, não comportamental. Separe as decisões que foram de fato suas das que você herdou de um silêncio que veio de cima. Você provavelmente vai descobrir que sustenta, com competência, um punhado de escolhas que nunca foram tomadas por ninguém.

O segundo movimento é mais desconfortável, e é onde mora o dente. Devolva a decisão não tomada para o lugar onde ela deveria acontecer, nomeada, visível, custosa, não como reclamação, mas como leitura. Enquanto a omissão for gratuita para quem a evita, ela vai continuar descendo. Ela só para de descer quando volta a custar alguma coisa lá em cima.

Fica uma pergunta antes da próxima segunda, e ela não é confortável. Qual decisão você sustenta tão bem hoje que, se você simplesmente parasse de sustentá-la, obrigaria alguém a finalmente tomá-la?

Referências

Karasek, R. A. (1979). Job demands, job decision latitude, and mental strain: implications for job redesign. Administrative Science Quarterly, 24(2), 285-308.

McEwen, B. S., & Stellar, E. (1993). Stress and the individual: mechanisms leading to disease. Archives of Internal Medicine, 153(18), 2093-2101.

Kivimäki, M. et al. (2012). Job strain as a risk factor for coronary heart disease: a collaborative meta-analysis of individual participant data. The Lancet, 380(9852), 1491-1497.

Andréia Assis

Andréia Assis

Médica de formação, executiva e autora. Ajuda líderes e organizações a ler o campo antes de intervir. Autora de Liderança Singular e Domador de Rinocerontes.

Um ponto cego por semana, antes da semana começar.

Este texto nasceu na DOMADORES, a newsletter de Andréia Assis. Assinar a newsletter →