Carreira e mudança

Por que sinto que fiquei para trás mesmo entregando bem?

A biologia tem um nome para uma ironia que você conhece sem nunca ter precisado nomeá-la. Uma característica pode ser perfeitamente afiada para um ambiente e, sem mudar em nada, virar um problema quando esse ambiente muda mais rápido do que ela. O corpo que aprendeu a guardar gordura com eficiência foi uma vantagem durante milênios de escassez; virou um risco no instante em que a comida deixou de faltar. Nada nele piorou. O que mudou foi o mundo em volta, que trocou de regra e transformou o mesmo traço de acerto em aparência de defeito.

No trabalho, a mesma coisa acontece o tempo todo, quase sempre lida do jeito errado. Você entrega há anos, com competência de sobra. De repente, sente que perdeu o passo. Existe uma regra nova que todo mundo pareceu aprender sem você. A leitura automática é a de sempre: faltou atualização, corra atrás. A leitura estrutural começa por uma pergunta que quase ninguém faz: o que mudou lá fora, não em você?

Vale ir ao mecanismo, porque o desconforto que você sente é, antes de tudo, uma questão de fase. Toda organização carrega, em um dado momento, um conjunto de regras não ditas sobre o que conta como valor ali dentro: quem é visto, quem é ouvido, quem é lembrado na hora de decidir. Essas regras parecem estáveis, mas mudam sem aviso, empurradas por uma tecnologia nova, por uma virada de mercado, por uma troca de comando. Quando mudam, a competência que sempre foi reconhecida não desaparece. Ela apenas deixa de ser lida como antes.

Repare no que isso faz com quem está dentro, porque essa é a parte injusta. Você continua fazendo bem exatamente o que sempre fez bem, com a prova disso toda ali, intacta, ao alcance da mão. Só que o ambiente passou a pedir outra coisa. O intervalo entre o que você domina e o que passou a valer é lido, por você e por quem está em volta, como um declínio seu.

É por isso que a resposta mais comum não resolve. Diante do desconforto, a empresa oferece mais um treinamento, mais um curso, como se o que faltasse fosse repertório. Treinar de novo quem já sabe, para uma régua que ninguém nomeou, não fecha o descompasso; apenas o adia. E ainda confirma a suspeita mais dolorosa: a de que o defeito era seu.

Esse descompasso tem nome. E o nome tira o peso das costas erradas. Chama-se inadequação evolutiva: o intervalo entre alguém que continua inteiro e um ambiente que trocou de fase mais rápido do que qualquer um percebeu. A inadequação é real, mas mora no encaixe entre você e o ambiente, não dentro de você.

A chave está inteira. Foi a fechadura que trocaram.

A saída começa por trocar a pergunta. E a troca incomoda, porque tira você do banco dos réus. Em vez de perguntar o que me falta aprender, faça a pergunta que muda o eixo: qual regra virou por aqui? E desde quando? Assim o desconforto deixa de ser um veredito sobre o seu valor e passa a ser informação sobre o lugar onde você trabalha.

Com a regra nomeada, a decisão fica mais limpa. Às vezes o movimento certo é mesmo buscar um repertório novo, agora por escolha e com rota, não no susto. Às vezes é enxergar que o ambiente foi para um lugar que não é o seu. O seu encaixe vai acontecer melhor em outro local, com outra gente. Nos dois casos, a decisão nasce de uma leitura correta do sistema, não de uma culpa mal endereçada.

O desconforto talvez não vá embora amanhã. O que muda, quando você lê a fase certa, é que ele para de ser uma sentença sobre quem você é e volta a ser o que sempre foi: informação sobre o mundo lá fora.

Referências

ASSIS, Andréia. Liderança Singular.

Andréia Assis

Andréia Assis

Médica de formação, executiva e autora. Ajuda líderes e organizações a ler o campo antes de intervir. Autora de Liderança Singular e Domador de Rinocerontes.

Um ponto cego por semana, antes da semana começar.

Este texto nasceu na DOMADORES, a newsletter de Andréia Assis. Assinar a newsletter →