Custo afundado

É convicção ou apego que sustenta a sua decisão?

Há uma cena que se repete nas salas onde decisões grandes são defendidas. Um líder sustenta a continuidade de um projeto e a voz não treme. Os argumentos vêm organizados, as respostas parecem prontas, não há hesitação aparente. É impressionante de assistir.

Mas, às vezes, se você escuta com atenção, alguma coisa não fecha.

A firmeza não vem exatamente da certeza de que continuar é a melhor decisão. Vem do que significaria parar agora, depois de dois anos de trabalho, dinheiro investido, reputação comprometida e uma quantidade enorme de energia colocada naquela direção.

A posição continua sendo defendida, mas já não está claro se o que a sustenta são as perspectivas do projeto ou o preço emocional de admitir que talvez seja hora de abandoná-lo.

Essa diferença é difícil de perceber porque convicção e apego podem soar exatamente iguais do lado de fora.

Você provavelmente já viu isso acontecer. Talvez já tenha vivido também, defendendo com ótimos argumentos alguma coisa que, num lugar mais silencioso, sabia que mantinha de pé porque recomeçar parecia mais doloroso do que continuar.

Existe uma diferença importante entre sustentar uma decisão e ficar preso a ela. Sustentar exige conseguir olhar para a própria posição e dizer o que precisaria acontecer para que ela deixasse de fazer sentido. Quem tem convicção não precisa imaginar que estará certo para sempre. Precisa saber quais evidências fariam a hipótese ser revista.

O apego funciona de outro jeito. Quanto mais tempo, dinheiro, esforço ou reputação foram colocados numa escolha, mais difícil fica separá-los da decisão seguinte. Aquilo que já aconteceu começa a participar da justificativa para continuar.

É aí que aparece uma armadilha conhecida como custo afundado.

O nome é quase autoexplicativo. São os recursos que já foram gastos e não podem ser recuperados, qualquer que seja a decisão daqui para frente. Em teoria, eles não deveriam determinar o próximo passo. Na prática, têm um peso enorme porque parar obriga a reconhecer uma perda que, enquanto seguimos, ainda podemos fingir que não terminou de acontecer.

Por isso é tão fácil continuar colocando recursos justamente naquilo que já consumiu recursos demais.

Enquanto o projeto permanece vivo, a história ainda pode terminar bem. No momento em que paramos, alguma coisa precisa ser reconhecida: o dinheiro não volta, o tempo não volta, aquela aposta talvez não tenha produzido o que esperávamos.

Continuar adia esse encontro.

E adiar costuma parecer mais confortável do que nomear a perda agora.

Nas organizações, esse mecanismo encontra um ambiente especialmente fértil. Rever uma decisão ainda é facilmente confundido com admitir incompetência. Insistência ganha nomes nobres como coragem, consistência e capacidade de execução, enquanto mudar de ideia pode ser interpretado como falta de firmeza.

Ninguém precisa declarar essa regra. Ela é aprendida observando.

Quanto mais sênior a pessoa se torna, mais delicado fica o problema. É natural que exista mais respeito ao redor dela, mas também existe cálculo. Nem toda discordância chega com a mesma força a quem ocupa posições de poder. Aos poucos, as pessoas passam a escolher melhor quais batalhas querem comprar, e aquilo que poderia funcionar como resistência útil começa a desaparecer.

Só que nem sempre a ausência de contestação vem apenas do entorno.

Há momentos em que a pergunta que mais evitamos é justamente aquela que poderia desmontar o que já construímos.

A medicina me ensinou isso cedo. Durante muitos anos, lendo exames e acompanhando pacientes, aprendi que uma hipótese diagnóstica não merece lealdade quando deixa de explicar os achados. Quanto mais tentamos forçar a realidade a caber numa conclusão já escolhida, maior a chance de perdermos exatamente o que deveríamos estar enxergando.

A disciplina não está em defender o primeiro diagnóstico com mais habilidade. Está em perceber quando chegou a hora de reabri-lo.

Uma hipótese diagnóstica não merece lealdade quando deixa de explicar os achados.

Esse princípio ficou comigo muito além da medicina.

Minha própria trajetória mudou de direção várias vezes. Houve um tempo em que eu imaginava que minha vida profissional seria inteiramente construída dentro da prática médica. Depois vieram outros caminhos, outras funções e outras formas de trabalhar. Em cada mudança, uma parte da dificuldade não estava apenas no desconhecido que vinha pela frente, mas também naquilo que parecia ficar para trás.

Formação, experiência, identidade, reconhecimento. Quanto mais construímos numa direção, mais caro parece considerar outra.

Talvez seja justamente por isso que algumas decisões exigem mais do que coragem para seguir. Exigem coragem para revisar.

Hoje existe uma pergunta que gosto de levar para situações assim:

O que precisaria acontecer para você mudar de ideia sobre isso?

Não considero que ter uma resposta seja uma garantia de que não existe apego. Somos muito bons em racionalizar nossas escolhas. Mas conseguir nomear as condições que fariam uma posição ser revista é um bom sinal de que ela continua aberta à realidade.

Se nenhuma evidência parece suficiente, se qualquer resultado pode ser reinterpretado como motivo para insistir mais um pouco, talvez valha investigar o que está realmente sendo protegido.

Pode ser o projeto.
Mas pode ser o investimento já feito nele.

Pode ser a decisão.
Mas pode ser a reputação de quem a tomou.

Pode ser convicção.
Mas pode ser apenas o preço que voltar atrás parece ter adquirido.

Isso não significa que tudo o que já foi investido deva ser ignorado. O passado contém aprendizado, compromissos e consequências reais. O que ele não pode fazer, sozinho, é justificar a continuidade.

O dinheiro que já foi gasto não se torna recuperável porque você gastou mais.
Os dois anos dedicados a uma direção não voltam porque você dedicou um terceiro.
E o orgulho empenhado numa escolha não é evidência de que ela continua sendo a escolha certa.

A pergunta relevante continua olhando para a frente: dadas as informações que tenho hoje, aquilo que ainda posso ganhar, perder ou construir justifica continuar?

Talvez seja essa uma das formas mais difíceis de firmeza.

Não a de permanecer na mesma posição a qualquer custo, mas a de conseguir mudar quando as evidências já não sustentam aquilo que um dia você teve boas razões para escolher.

Convicção não precisa ser eterna para ter sido verdadeira.

Às vezes, a decisão mais coerente com aquilo que você acreditava é justamente reconhecer que chegou informação nova.

Andréia Assis

Andréia Assis

Médica de formação, executiva e autora. Ajuda líderes e organizações a ler o campo antes de intervir. Autora de Liderança Singular e Domador de Rinocerontes.

Um ponto cego por semana, antes da semana começar.

Este texto nasceu na DOMADORES, a newsletter de Andréia Assis. Assinar a newsletter →