Liderança e motivação

Por que o seu time parece impossível de motivar?

Na mentoria, um diretor me disse que a equipe dele tinha ficado impossível de entender. Nada mais animava como antes. O que durante anos parecia suficiente já não produzia o mesmo efeito, e ele falava com a segurança de quem havia fechado o diagnóstico: as pessoas que chegaram agora eram diferentes demais.

Eu escuto alguma versão dessa frase com frequência. O time ficou difícil. A nova geração não valoriza mais nada. Ninguém quer as mesmas coisas. Por trás delas costuma existir uma conclusão silenciosa: alguma coisa mudou nas pessoas, e é por isso que liderá-las se tornou mais complicado.

É uma explicação tentadora porque preserva intacto o instrumento de quem observa. Se o problema está nas pessoas, não é preciso perguntar se o modo de lê-las continua funcionando.

Só que aquilo que move alguém a se dedicar nunca foi tão fixo quanto parecia. Durante muito tempo, algumas recompensas foram previsíveis o suficiente para funcionar como uma espécie de linguagem comum. Estabilidade, crescimento, reconhecimento, o próximo degrau. Um líder aprendia a operar esse conjunto e via o mundo confirmar sua leitura ano após ano.

O instrumento foi calibrado ali.

Funcionou tão bem durante tanto tempo que ficou fácil esquecer que ele também pertencia a uma época.

Nos últimos anos, não foram apenas as pessoas que mudaram. Mudou a relação com o trabalho, com o tempo, com a segurança e até com a ideia de futuro. Estruturas que pareciam estáveis passaram a ser redesenhadas mais depressa. Carreiras se tornaram menos lineares. O próximo degrau deixou de carregar, para muita gente, o mesmo significado que carregava antes.

E isso não atingiu apenas uma geração.

Atingiu também quem lidera.

Na conversa com aquele diretor, havia uma ironia que ele ainda não tinha percebido. Ele reclamava que o desejo do time tinha mudado, mas o dele também havia mudado. Coisas que dez anos antes o fariam permanecer numa empresa já não tinham necessariamente o mesmo peso. Ele conseguia reconhecer essa mudança em si mesmo, mas ainda a interpretava como defeito quando aparecia nos outros.

Talvez seja aí que a leitura comece a falhar.

O líder continua oferecendo recompensas que conhece e, quando elas já não produzem o mesmo efeito, tende a concluir que alguma coisa está errada com quem recebe.

É como usar uma bússola perfeitamente funcional sobre um mapa que deixou de representar o terreno. A agulha continua firme. O instrumento não parece quebrado. Justamente por isso, é difícil perceber que a referência ao redor mudou.

Esse é o ponto que mais me interessa.

Às vezes, a pessoa à sua frente não está perdida. Ela está se movendo em direção a algo que o seu modelo ainda não sabe reconhecer.

Aquilo que você chama de falta de foco pode ser foco em outra coisa. Aquilo que você chama de falta de ambição pode ser uma ideia diferente de ambição. E aquilo que parece desinteresse talvez seja apenas o sinal de que a recompensa oferecida perdeu relevância para aquela pessoa.

A confusão existe. Só não é tão óbvio de que lado da mesa ela está.

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Ninguém precisa estar perdido para que o mapa tenha envelhecido.

A tentação seguinte costuma ser concluir que falta empatia. Que o líder precisa ouvir mais, se aproximar mais, cuidar melhor.

Tudo isso ajuda, claro. Mas existe um limite para a empatia quando ela continua guiada por categorias antigas.

É possível ouvir alguém com atenção e ainda interpretar a resposta a partir do que você próprio considera desejável. É possível se aproximar com a melhor intenção e continuar oferecendo exatamente aquilo que já não move aquela pessoa.

O gesto pode ser genuíno. A leitura ainda assim pode estar desatualizada.

Por isso, talvez o primeiro movimento não seja oferecer mais alguma coisa, e sim trocar a pergunta.

“Por que essas pessoas mudaram?” parece uma pergunta neutra, mas já carrega uma hipótese dentro dela. Coloca a mudança do outro como o problema a ser explicado.

Uma pergunta diferente abre outra conversa:

O que move esta pessoa agora?

No singular.

Porque talvez a mudança mais difícil para quem lidera não seja descobrir uma nova fórmula de motivação. Seja aceitar que a fórmula comum perdeu parte da utilidade.

Duas pessoas sentadas lado a lado podem valorizar coisas muito diferentes. Para uma, autonomia pesa mais do que promoção. Para outra, o aprendizado importa mais do que o cargo. Uma terceira talvez queira estabilidade justamente porque passou anos vivendo sem ela.

Liderar nesse cenário exige menos adivinhação e mais curiosidade.

Exige perguntar antes de oferecer. Observar antes de concluir. E, sobretudo, resistir à tentação de transformar aquilo que não entendemos em defeito de quem está diante de nós.

Voltei à conversa com o diretor por esse caminho.

Talvez o time dele não tivesse ficado ilegível. Talvez as referências com que ele aprendeu a ler pessoas é que já não explicassem tudo o que aparecia diante dele.

Essa diferença parece pequena, mas muda completamente o trabalho.

Quando o problema é “essa geração”, sobra pouco a fazer além de reclamar dela, tentar corrigi-la ou esperar que se adapte.

Quando o problema pode estar também no instrumento de leitura, o líder recupera alguma margem de ação. Ele pode perguntar melhor, observar melhor e recalibrar o próprio modelo.

Não é uma confissão de fracasso. Na verdade, talvez seja uma das partes mais maduras do trabalho de liderar.

Toda boa liderança depende de algum modelo sobre pessoas. O risco começa quando esquecemos que modelo nenhum é a própria realidade.

Então fica uma pergunta para a sua semana.

O que você anda chamando de “gente difícil” no seu time?

Escolha uma pessoa só e, antes de explicar o comportamento dela com as categorias que você já conhece, experimente perguntar o que realmente a move hoje.

Talvez a resposta confirme o que você já sabia.

Mas talvez ela mostre alguma coisa que o seu mapa ainda não tinha registrado.

E é aí que a recalibragem começa.

Andréia Assis

Andréia Assis

Médica de formação, executiva e autora. Ajuda líderes e organizações a ler o campo antes de intervir. Autora de Liderança Singular e Domador de Rinocerontes.

Um ponto cego por semana, antes da semana começar.

Este texto nasceu na DOMADORES, a newsletter de Andréia Assis. Assinar a newsletter →