Média gerência sob pressão

Por que você trabalha o dia inteiro e a sua lista não anda?

Chega uma hora da noite em que você fecha o computador e faz a conta do dia. As reuniões andaram, as aprovações saíram, as mensagens que estavam travadas destravaram assim que você respondeu. Tudo isso aconteceu de verdade. Só que, quando você olha para a sua própria lista, ela continua intacta, do jeito exato que estava pela manhã.

O que você fez o dia inteiro foi resolver o trabalho dos outros. Cada coisa que dependia de você seguiu em frente. A sensação que sobra no fim não tem a ver com preguiça nem com tempo mal administrado. Tem a ver com algo mais incômodo: a de ter trabalhado sem parar e, mesmo assim, não ter chegado perto do que era seu.

Existe um nome para o que se esvaziou aí, um nome que quase nunca é dito em voz alta. Chama-se margem. Margem é a reserva entre uma demanda e a próxima, o intervalo em que ainda dá para pensar antes de responder. É o espaço onde o pensamento acontece; e essa margem costuma ser a primeira coisa a desaparecer quando o dia aperta.

Pense num copo cheio até a borda. Enquanto existe um dedo de espaço no topo, cabe uma gota a mais sem transbordar. A margem é esse dedo de espaço; o problema é que ela some em silêncio, um pouco de cada vez, sem que você perceba.

É o primeiro recurso que você perde e o último que percebe ter perdido.

E quando o último dedo de espaço se vai, o dia inteiro muda de qualidade. Ele deixa de ser conduzido e passa a ser apenas respondido, estímulo por estímulo.

Onde não há margem, não há pensamento. Só reação.

E aqui vale ir ao mecanismo, porque a margem não se esvazia por um descuido seu. A sua posição no meio da estrutura é, antes de qualquer coisa, uma posição de gargalo. Toda a corrente da organização passa por ali e o volume que chega até você não é aleatório.

Boa parte desse volume é a cascata de decisões que desceram porque ninguém acima resolveu. Quando o topo evita decidir, o problema não desaparece; ele só troca de andar e desce até encontrar alguém disposto a absorver. A omissão que não decide também é uma forma de governar e sempre se resolve para baixo, onde alguém precisa agir e assinar o resultado.

Com a repetição, alguma coisa muda de natureza. Absorver deixa de ser um gesto consciente de quem quer ajudar e vira reflexo, um automatismo do sistema. A margem some exatamente aí, não por falha de caráter de quem lidera, mas pela forma como o bastidor foi montado.

Repare que ela some de um jeito diferente conforme a estrutura de decisão do seu time. Há equipes que travam esperando aprovação a cada passo e, nesse desenho, você vira o ponto por onde tudo precisa passar antes de andar. Há equipes que avançam com o rumo claro e voltam só para confirmar a direção. Nesse desenho, você é consultado, não atravessado.

A diferença entre uma e outra quase nunca é competência. É quanto de decisão foi de fato devolvido e com que clareza de rumo. Uma equipe que sabe para onde vai demanda menos, e cada pergunta a menos é um pedaço de margem que volta para você.

A saída caminha na direção contrária ao controle. É um movimento menos intuitivo do que parece. O instinto de quem está afogado em decisões é puxar ainda mais para si, revisar tudo, aprovar cada passo. Só que controle concentra a decisão em você e realimenta o mesmo gargalo que te afoga.

O movimento inverso é oferecer direção. Direção distribui a decisão e devolve à equipe aquilo que ela já tem condição de resolver sozinha, desde que o rumo esteja nomeado com clareza. Decisão, nesse ponto, tem menos a ver com força interior do que com reorganização do ambiente; é o trabalho de deixar a realidade arrumada o suficiente para que a escolha aconteça sem precisar passar por você.

É aqui que a antirresiliência sai do conceito e vira gesto. Em vez de gastar energia tentando restaurar uma rotina de controle que não vai voltar, você reorganiza o desenho para frente, define o critério e o eixo, deixa de ser o lugar onde toda decisão precisa parar.

A margem volta quando a decisão para de convergir para uma pessoa só.

Fica um convite para os próximos dias. Ele não é confortável. Repare em quantas decisões pararam em você esta semana porque exigiam mesmo o seu julgamento ou porque ninguém antes quis decidir.

Dessas, quantas a sua equipe já poderia ter resolvido sozinha se o rumo estivesse claro? A resposta a essa segunda pergunta costuma ser o tamanho exato da margem que anda faltando.

Se quiser sair desta leitura com um gesto, não só com uma pergunta, aqui vai um de dois minutos. Escolha três decisões que pararam em você nos últimos dias e, para cada uma, pergunte se ela exigia mesmo o seu julgamento ou se apenas ninguém antes quis decidir. Para as que não exigiam, nomeie qual rumo faltava para a equipe seguir sem você. É antirresiliência aplicada: em vez de retomar as três, você devolve as três com o eixo claro.

Andréia Assis

Andréia Assis

Médica de formação, executiva e autora. Ajuda líderes e organizações a ler o campo antes de intervir. Autora de Liderança Singular e Domador de Rinocerontes.

Um ponto cego por semana, antes da semana começar.

Este texto nasceu na DOMADORES, a newsletter de Andréia Assis. Assinar a newsletter →