Parte II · O cargo esvaziado

Cobram tudo de você, mas decidem quase nada com você

Você abre a caixa de entrada antes de a semana começar, mais por reflexo do que por escolha. E o que está lá não tem quase nada a ver com o que vai decidir e sim com o que vai ter que aguentar.

A meta que desceu da diretoria e a ansiedade que subiu da equipe chegam juntas. Atrás delas vêm o clima, o bem-estar, a NR-1 e agora a IA... tudo caindo na mesma cadeira sem que ninguém pergunte se ela aguenta.

O que ninguém nomeia é que esse cargo deixou de ser lugar de decisão e virou lugar de depósito.

Assim, antes de procurar o defeito na pessoa, olhe para a estrutura. Ela cobra resultado, cultura e bem-estar da equipe e entrega quase nenhum poder de decisão. Exige cuidado com a saúde mental do time e premia a urgência e a disponibilidade sem limite. A conta não fecha.

A Gallup mediu o tamanho disso em seu relatório global do trabalho. Enquanto o engajamento dos colaboradores individuais se manteve em 18%, o dos gestores caiu de 30% para 27%. E caiu mais fundo ainda nos grupos mais expostos: cinco pontos a menos abaixo dos 35 anos, sete a menos entre as mulheres. O desânimo não se espalhou por igual; ele se mostrou mais presente exatamente na camada onde mais se cobra e menos se decide.

E quando o resultado não vem, o sistema raramente revisa o próprio desenho. Prefere apontar para quem ocupa a cadeira e dizer que falta soft skill, que falta gestão de pessoas, que falta jogo de cintura. E com isso transforma em um defeito pessoal um erro que é de engenharia.

Por isso digo com todas as letras. O engajamento não desabou em você, desabou no cargo, em um cargo que o sistema transformou em depósito.

Não foi você que parou de querer; foi o cargo que pararam de desenhar.

E é aqui que a leitura errada cobra caro. Tratar o próprio esgotamento como falha pessoal leva a consertar com esforço o que só se resolve com redesenho, e o esforço alimenta o depósito em vez de aliviá-lo.

A virada começa por uma pergunta que separa o que é seu do que foi só depositado: de tudo o que estão cobrando, sobre o que de fato eu tenho poder de decidir?

O que sobra dessa pergunta é a sua carga real.

Todo o resto é carga depositada, e carga depositada se devolve à estrutura, não se carrega sozinha.

Esse peso tem nome, e não é fraqueza. Chama-se sobrecarga moral. Ele existe para deixar clara uma frase só: você está carregando o que não é seu.

Andréia Assis

Andréia Assis

Médica de formação, executiva e autora. Ajuda líderes e organizações a ler o campo antes de intervir. Autora de Liderança Singular e Domador de Rinocerontes.

Um ponto cego por semana, antes da semana começar.

Este texto nasceu na DOMADORES, a newsletter de Andréia Assis. Assinar a newsletter →